ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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CALDAS DA RAINHA NA DÉCADA DE SESSENTA







por Dario Manso









Foi-me solicitada a colaboração para tentar descrever a minha integração nas Caldas da Rainha no início da década de sessenta, cidade provinciana onde iniciei a vida profissional. Tendo nascido em meio rural da Beira Interior, fui cedo encaminhado para a grande urbe – Lisboa. Foram vivências verdadeiramente paradoxais em que decerto se depreende um sentido de melhoria de oportunidades. Todavia e para meu gáudio, o encontro com as Caldas da Rainha não se traduziu num retrocesso. Tentarei rememorar os factos que contextualizaram a minha chegada a essa cidade oestina, decorria o ano de 1963:

DO PONTO DE VISTA ECONÓMICO
§ Existência de um sector industrial em pleno desenvolvimento com a preponderância de empresas emergentes como a secla, frami, matel e rol, cuja significativa dimensão atraía para a cidade quadros técnicos de elevado grau de formação académica, constituindo não apenas um valor acrescido para toda a região como também potenciando o surto de novos postos de trabalho que sabemos essenciais para o crescimento urbano.

§ O sector do comércio era muito desenvolvido para a época, com particular incidência na Rua das Montras, um verdadeiro pólo de atracção para forasteiros que vinham inclusivamente da capital em busca da variada oferta de produtos e serviços de qualidade e, sobretudo, seduzidos pelo excelente acolhimento já então proporcionado a todos os visitantes.

§ Florescia a fruticultura com implantação de grandes áreas agrícolas predominantemente de macieiras e pereiras, uma opção que se repetia nos concelhos vizinhos.

§ O sector do Turismo era o que se me afigurava como o mais “adormecido”, tendo em conta o seu gritante potencial, comprovado desde logo pela existência de um Posto de Turismo. A localização da cidade era extremamente privilegiada para o desenvolvimento desse tipo de actividades. Centrava-se numa área natural bem preservada, com proximidade de espaços balneares (praias da Foz do Arelho, Peniche, São Martinho do Porto e Nazaré) e seria facilmente integrável nos roteiros que já incluíam os mencionados pontos turísticos bem como outros de passagem obrigatória, como as vilas de Óbidos, Alcobaça ou Batalha. Todavia, este potencial não se reflectia em termos em termos infra-estruturais, nomeadamente no que respeitava o equipamento hoteleiro.

§ O desenvolvimento da Restauração estava igualmente dissociado dos grandes fluxos turísticos, mas já assumia grande importância na cidade devido à existência do quartel militar e da proliferação de instituições escolares. Destacavam-se, pela sua qualidade, o Restaurante Capristanos no centro da cidade, e as Pousadas de Óbidos e de São Martinho do Porto na sua periferia.

DO PONTO DE VISTA SOCIAL, CULTURAL E DESPORTIVO
§ Encontrei uma região bastante favorecida no campo social que certamente se destacava do “país real”. Não eram de ignorar alguns focos de dificuldades mormente patentes nos bairros circundantes, mas a cidade apresentava uma grande vitalidade na resolução dessas carências através da actuação de diversas instituições de cariz religioso ou laico, permitindo então uma consolidação mais harmoniosa do seu tecido social.

§ A existência de diversos museus (públicos e privados) era reveladora do interesse que a população urbana nutria pela área cultural e que, decerto, já se manifestava desde gerações anteriores.

§ Um parque público de excepcional qualidade paisagística que era permanentemente animado no tempo de veraneio por música ligeira que se propagava por todo o lado (oh! ainda me parece estar a ouvir os Beatles), as bandas de música a actuar no coreto, onde existia um casino com uma iluminação deslumbrante e, o mais fundamental, pelo fervilhar de milhares de pessoas que percorriam aquele espaço em perfeita convivência de gerações, desfrutando dos sons, da frescura e da beleza que os envolvia.

§ As regulares sessões cinematográficas (a Televisão ainda era um meio de comunicação recente) que eram projectadas em duas salas de cinema satisfaziam uma plateia bem repleta de público, e com obras bem seleccionadas e actuais.

§ As colectividades dos bairros periféricos, de que destaco Os Pimpões, promoviam com assinalável assiduidade, diversas actividades recreativas e desportivas a que acediam todas as classes sociais.

§ Uma grande surpresa - mesmo para quem vem de uma grande urbe! - foi o facto de encontrar uma socialização muito arreigada das mulheres autóctones. Não apenas pela forma como se apresentavam e vestiam, mas sobremaneira como já haviam conseguido aceder aos locais públicos como cafés, restaurantes e praias. Constatei este “progresso” como necessário e estimulante para a vida citadina, algo seguramente invulgar nessa época, talvez apenas observável lá para a linha de Cascais.

§ A par e passo com a generalidade do país estava o acesso à prática desportiva, sendo as carências por demais evidentes. Exceptuando o Caldas Sport Club que ainda vivia resquícios de glórias futebolísticas recentes, ou o ténis de mesa e o basquetebol, nada mais ocorria nem se descortinava quando seriam criados os equipamentos desportivos que pudessem massificar a actividade desportiva, especialmente em prol da juventude.

DO PONTO DE VISTA DAS ACESSIBILIDADES
§ Já era célebre a velha linha do Oeste, por se vislumbrar uma diminuição na sua utilização a médio prazo. No entanto, ao tempo, era uma razoável via de comunicação bastante utilizada pelos residentes nas suas deslocações para as praias de São Martinho, nas suas viagens até à capital, e também no transporte de mercadorias. Cerca de hora e meia era o tempo necessário para alcançar Lisboa.

§ Em termos rodoviários, a EN1 era a espinha dorsal dos transportes terrestres na medida em que a aquisição de transporte automóvel próprio estava em franca expansão e sobretudo devido ao crescimento do sector do transporte de mercadorias com a utilização de camiões de longo curso. O reverso deste crescimento foram os constantes bloqueamentos de trânsito no centro da cidade, devido à quantidade e volume das viaturas que o atravessavam. Felizmente na mesma década foi criado o desvio da EN1 por Rio Maior, retomando-se o normal funcionamento citadino. Chegava-se a Lisboa em pouco mais de uma hora, à excepção do amigo Castanheira que, no seu Mini Cooper, o fazia em 45 minutos (ele que me desculpe a indiscrição).

§ A estrada da Foz era o único acesso àquela praia, pelo que na época balnear apresentava um volume de trânsito desmesurado para a época.

§ No cômputo geral, posso afirmar com segurança que as Caldas da Rainha possuíam acessibilidades aceitáveis tendo em conta o enquadramento nacional.

DO PONTO DE VISTA DA SAÚDE E EDUCAÇÃO
§ A cidade já dispunha de condições ímpares no campo da saúde pública, com o histórico Hospital Termal em pleno funcionamento, o Centro Hospitalar, o Hospital de Santo Isidoro e os serviços de atendimento da Segurança Social na Rua Raúl Proença, dotados de um corpo clínico muito evoluído apesar dos insuficientes meios de diagnóstico ao seu dispor.

§ No campo privado realço a instituição Montepio Rainha D.Leonor, que ombreava com o que de melhor existia no país. Era municiada de um corpo clínico competente e experiente, dedicado e também altruísta, e de instalações e meios de diagnóstico bastante evoluídos que eram colocados ao serviço dos seus associados e público em geral.

§ Deparei-me igualmente com uma medicina privada muito disseminada pela cidade, onde as diversas especialidades eram atendidas por conceituados especialistas aqui residentes e por aqueles que para aqui se deslocavam, vindos de Coimbra ou de Lisboa.

§ No que concerne o ensino público, este inseria-se na Escola Comercial e Industrial, com larga frequência e um corpo docente conceituado, bem como pela rede escolar do ensino básico disseminada por todas as freguesias do concelho.

§ O ensino privado pautava-se pela existência de um colégio dedicado ao ensino liceal, ao ensino primário e ao magistério primário cuja tradição e prestígio remontavam à década de 40. Dotado de um excelente quadro docente e exigente nas metas a alcançar. Era por alguns considerado como elitista, uma visão com que pessoalmente sempre discordei. O florescimento industrial, comercial e agrícola da região traduziu-se numa generalizada prosperidade financeira, pelo que o corpo discente do Colégio era transversal em termos sociais.

DO PONTO DE VISTA URBANÍSTICO
§ Apesar da tendência de crescimento urbano, especialmente na Encosta do Sol, notava-se uma certa harmonia e sentido estético na tipologia de construção.

§ O centro urbano estava salvaguardado em termos do património arquitectónico e apresentava uma conservação muito cuidada, em edifícios públicos ou privados. Alguma degradação veio a ser consentida sem contudo beliscar a sua traça essencial.

§ Nesta matéria quero realçar a excelência daquilo que apelidam de pavilhões do Parque, já à época com uma imperceptível utilização. Fez-me confusão, e hoje ainda mais me faz, a situação em que se encontram aquelas belas edificações e a sua falta de aproveitamento. Há décadas que esta jóia - actualmente o maior pombal do mundo – sofre ao que julgo saber por indecisões de ordem política, desconsiderando-se o potencial do espaço para o desenvolvimento de actividades turísticas, culturais, educativas ou da saúde.

Por tudo quanto foi possível recuperar da minha memória, torna-se evidente a minha fácil integração nesta cidade e nas gentes que a compõem, a qual ainda hoje é motivo de atracção para muitos jovens, em busca de oportunidades de formação ou de exercício das suas profissões.

1 comentário:

Manuela Gama Vieira disse...

Já venho um pouco atrasada...mas não quero deixar de saudar o Sr.Dario, de quem me lembro muito bem.
Quanto à "Caldas" que encontrou nos anos 60, curiosamente, coincide com o que me recordo de ter encontrado, ali chegada em 1964(se não estou em erro). Uma descrição num estilo muito "low profile", também este coincidente com o que me lembro de si.
Fala da Beira Interior...e que me diz do seu berço beirão, e do seu concelho natal???
Quando vier à Sertã, será um gosto cumprimentá-lo.
Manuela Gama Vieira