ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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A PROPÓSITO DE "A PRAÇA"

por João Jales

O conto “A Praça”, do nosso colega João Ramos Franco, despertou em mim um amontoado de recordações. A quantidade de informações, imagens, palavras e momentos suspensos no tempo que temos dentro de nós é incrível, é pena não poder fazer uma busca por temas no meu cérebro como faço neste computador onde escrevo.

Mas o texto levantou-me várias questões, nem todas elas com respostas claras.

1 – Porquê a necessidade de “marcar” tão cedo um lugar na Praça?

Era habitual, ao sair do Casino às 3 ou 4 da manhã, ver gente a guardar, pessoalmente ou com objectos variados, os quadrados onde iriam vender os seus produtos na manhã seguinte. Aparentemente só os m2 estavam licenciados, garantindo que o espaço disponível não era excedido, não o local exacto. Os agricultores que vendiam directamente ao público eram pois obrigados a chegar ridiculamente cedo para garantir os melhores lugares na metade ocidental da praça.

As “contratadeiras” (intermediárias não produtoras) chegavam mais tarde porque mantinham um entendimento e um acordo interno, ocupando espaços maiores e sempre cobertos. Situavam-se (penso que ainda se situam) na zona frontal ao Café Central.

2 – Quem vendia na praça?

Pequenos produtores, sem dúvida, mas com uma produção e uma estrutura familiar que lhes permitia ter produtos excedentários e capacidade de transporte para o mercado. Não eram, ao que me dizem, os mais pobres habitantes da cintura agrícola das Caldas, antes pelo contrário. Havia associações e entendimentos, tanto no transporte como na venda, entre familiares e vizinhos, o que permitia rentabilizar meios e diminuir custos. Nessa altura os burros e as carroças enchiam o centro das Caldas no início e fim da manhã.

As “contratadeiras”, que referi atrás, eram negociantes puras que compravam a agricultores que não vinham à praça ou, por grosso, os melhores produtos de alguns que vinham. Os seus preços eram mais altos mas a sua fruta, principalmente, era maior e mais vistosa.

Tenho a ideia de que a vida dos que vendiam na praça era inegavelmente dura, até pelos horários, condições climatéricas e deslocações, mas era economicamente compensatório fazê-lo.

3 – Como se comprava na praça?

As profissionais das compras, de todas as condições sócio-económicas, nunca iam às “contratadeiras”, preferindo descobrir e regatear os melhores produtos dos pequenos vendedores. Fui muitas vezes com a minha mãe à praça na década de 60 e ficava encantado com aquele jogo do "custa dez! Dez não, cinco. Ai, por cinco não posso! Então fica para a próxima (e volta as costas). Volte cá, freguesa, vire para cá esses olhos bonitos, e se for por sete?" E o jogo recomeçava mais à frente, com as alfaces ou uma galinha. A minha Mãe só comprava aqui, o meu Pai, que levava ocasionalmente fruta para casa, ia sempre directo às "contratadeiras", onde era sempre enganado, na opinião desdenhosa da esposa.
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Nesse dia de 1963 eu tinha 9 anos, se não estivesse no Colégio era bem provável que estivesse na praça, não só para ajudar a carregar algumas compras, mas sobretudo na mira de um pastel de nata ou uma Bola de Berlim na Zaira, a seguir….

Lembro-me de ser solicitado, mais tarde, para transportar para o Mini em que íamos às compras, sacas de batatas e cebolas ou cestas de fruta que, compradas em quantidade, saíam muito mais baratas. E também coelhos, perus, galos e galinhas, bichos grandes e que se fartavam de dar luta! Bem sei que eu era mais pequeno, o que altera as perspectivas, mas os galináceos eram bem diferentes dos mirrados pintainhos que hoje vejo serem abatidos. E os coelhos? Alguns com 5 e 6 quilos, fartavam-se de espernear e não eram fáceis de dominar. Um, que se soltou durante a viagem da corda que o prendia, saltou uma vez do porta-bagagens para a estrada, obrigando-me a dar duas voltas à igreja para o apanhar, no meio de muitos risos, e pouca ajuda, dos transeuntes…Todos estes animais existiam na praça para venda, até cabritos apareciam nas ocasiões festivas! Compravam-se vivos e apareciam mortos ao domicílio estes últimos, mas os outros eram chacinados lá em casa, por métodos pouco recomendáveis para serem aqui descritos.

Mas é desta festa de cores, sons, sabores (provava-se de tudo!), deste contacto entre mundos e extractos sociais muito diferentes, é de tudo isto que eu me lembro, quando se fala da Praça.





João Jales




1 comentário:

Manuela Gama Vieira disse...

Parece que estou a ver a praça!!!
Linda, colorida, os "carreiros" das vendedeiras com os seus cestos e cabazes repletos dos mais variados produtos, não esquecendo as deliciosíssimas cavacas! Ai que saudades!!!
A propósito do "regateio" do preço, vou contar um episódio de que fui protagonista, teria uns 14 anos:
Na ausência de minha Mãe que esteve fora por motivos de saúde, fui à praça e aprecei as batatas. Responde-me a vendedeira: "2Kg,2$50". Fiquei a pensar...se seria barato ou caro...mas arrisquei regatear...afinal, tinha que dar "ar" de quem não se deixava enganar....e contrapropus: "e se for a 2$00 o Kg?". "Pode ser, menina, abra lá o cesto".
Pois pudera....